Estilos de aprendizagem: o que a ciência diz (e o que fazer no lugar)
Visual, auditivo, cinestésico. Pouca ideia sobre educação é tão popular, e poucas têm tão pouca prova a favor. O que dizem as pesquisas e o que usar no lugar.
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Neste artigo
Você provavelmente já ouviu que existem alunos visuais, auditivos e cinestésicos, e que cada um aprende melhor quando a aula combina com o seu estilo. A ideia é intuitiva, aparece em cursos de formação de professores e está em muito material corporativo de treinamento.
O problema é que, quando foi testada do jeito certo, ela não se sustentou.
De onde vem a ideia
Existem dezenas de modelos de estilos de aprendizagem. Uma revisão publicada em 2004 por Frank Coffield e colegas, para o Learning and Skills Research Centre, do Reino Unido, analisou em detalhe os 13 mais influentes. Os mais conhecidos no Brasil são o VAK e o VARK (visual, auditivo, leitura e escrita, e cinestésico) e o modelo de Kolb, que divide as pessoas pelo jeito de processar a experiência.
A promessa por trás de quase todos eles é a mesma: descubra o estilo da pessoa e ensine nesse formato, que ela vai aprender mais.
O teste que a teoria precisava passar
Em 2008, quatro pesquisadores de memória e aprendizagem, Harold Pashler, Mark McDaniel, Doug Rohrer e Robert Bjork, publicaram uma revisão na Psychological Science in the Public Interest sobre exatamente essa promessa. Eles chamaram a ideia de "hipótese do encaixe": o aluno aprende mais quando o ensino combina com o estilo dele.
Para provar isso, dizem os autores, um estudo precisaria de três coisas: medir o estilo de cada aluno, sortear quem recebe cada tipo de aula e aplicar a mesma prova para todos no fim. Se a hipótese estiver certa, os visuais que tiveram aula visual vão melhor que os visuais que tiveram aula falada, e o contrário acontece com os auditivos.
Estudos com esse desenho eram raros. E os poucos que existiam não mostraram o efeito. A conclusão da revisão é que a evidência a favor de adaptar o ensino ao estilo de cada aluno é fragmentada e pouco convincente.
Por que o mito continua por aí
Em 2015, Philip Newton, da Universidade de Swansea, fez a busca que um professor faria para checar se vale a pena usar estilos de aprendizagem. O resultado, publicado na Frontiers in Psychology, é desconfortável: a grande maioria dos artigos recentes que aparecem nessa busca trata os estilos como algo certo. Quem procura evidência acaba encontrando o contrário do que a pesquisa mais rigorosa mostra.
Ajuda também o fato de que a ideia tem um fundo verdadeiro. As pessoas têm, sim, preferências. Muita gente gosta mais de ver um esquema do que de ler um parágrafo. O que a pesquisa não encontrou é o passo seguinte: que ensinar só no formato preferido faça a pessoa aprender mais.
O que funciona, segundo a pesquisa
Se o estilo não é o atalho, o que é? Em 2013, John Dunlosky e colegas avaliaram dez técnicas de estudo muito usadas e publicaram o resultado na mesma Psychological Science in the Public Interest. A Association for Psychological Science resumiu o estudo assim:
| Técnica | O que a revisão concluiu |
|---|---|
| Testar a si mesmo (tentar lembrar sem olhar) | Alta utilidade: funciona para várias idades e tipos de prova |
| Estudo espaçado (em vários dias, não tudo de uma vez) | Alta utilidade |
| Perguntar "por quê?" e explicar para si mesmo | Utilidade moderada |
| Misturar tipos de exercício na mesma sessão | Utilidade moderada |
| Resumir, grifar e reler | Baixa utilidade, apesar de serem as técnicas mais usadas |
Repare que nenhuma das técnicas que funcionam depende do estilo da pessoa. Testar a si mesmo funciona para quem se diz visual e para quem se diz auditivo.
Então teste de estilo de aprendizagem não serve para nada?
Serve, desde que a pergunta seja outra. Em vez de "como essa pessoa aprende", a pergunta útil é "como essa pessoa gosta de estudar, e onde isso está atrapalhando". Usado assim, o teste vira um bom ponto de partida para três conversas:
- Com o aluno: o formato preferido ajuda a começar, mas a revisão precisa ser feita de outro jeito, de preferência testando a si mesmo.
- Com o professor ou o treinador: variar o formato da aula ajuda mais do que separar a turma por estilo.
- Com quem estuda sozinho: se a pessoa só relê e grifa, porque é o que ela gosta, é ali que está o maior ganho.
É com essa leitura que o teste de estilo de aprendizagem do Perfiz foi pensado: o resultado é uma preferência, não uma capacidade. Todo mundo aprende pelos quatro caminhos, em doses diferentes. O relatório mostra qual pesa mais e sugere uma prática pequena para testar, e serve para conversar com a turma, não para separar alunos por estilo.
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Fontes
- 1.Pashler, H., McDaniel, M., Rohrer, D., & Bjork, R. (2008). Learning styles: Concepts and evidence. Psychological Science in the Public Interest, 9(3), 105–119. faculty.med.virginia.edu/facultyaffairs/files/2016/04/2010-2-9.pdf
- 2.Newton, P. M. (2015). The learning styles myth is thriving in higher education. Frontiers in Psychology, 6, 1908. www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2015.01908/full
- 3.Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students’ learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4–58. www.psychologicalscience.org/news/releases/which-study-strategies-make-the-grade.html
- 4.Coffield, F., Moseley, D., Hall, E., & Ecclestone, K. (2004). Learning styles and pedagogy in post-16 learning: a systematic and critical review. Learning and Skills Research Centre, Londres. www.voced.edu.au/content/ngv%3A13692
Os testes do Perfiz são de autoconhecimento e desenvolvimento. Não são testes psicológicos e não servem para diagnóstico.

