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Valores pessoais: o que são e como explicam suas escolhas

Duas pessoas competentes recebem a mesma proposta e decidem o contrário. Muitas vezes a diferença está nos valores. O que a teoria de Schwartz mostra sobre eles, com dados de dezenas de países.

Equipe Perfiz

· 6 min de leitura

Ilustração de uma mulher, vista de costas, organizando dez cartões coloridos em arco sobre uma mesa de madeira, com um cartão na mão, uma planta e uma xícara de chá ao lado
Neste artigo

Duas pessoas recebem a mesma proposta: um cargo de gestão, salário 30% maior, numa empresa que espera disponibilidade quase o tempo todo. Uma aceita no dia seguinte. A outra passa uma semana dormindo mal e recusa. As duas são competentes e as duas querem crescer.

O que separa uma decisão da outra, muitas vezes, não é a personalidade nem a capacidade. São os valores. E, ao contrário do que parece, valores dá para medir e comparar. Há mais de 30 anos, o psicólogo social Shalom Schwartz, da Universidade Hebraica de Jerusalém, montou a teoria que virou referência no assunto.

O que são valores pessoais

Para Schwartz, valores são objetivos amplos que a pessoa considera desejáveis e que servem de princípio para a vida dela. Eles valem em qualquer situação: quem dá muito peso a honestidade leva isso para o trabalho, para casa e para o trânsito. Por isso pesam tanto nas escolhas grandes, como carreira, empresa, cidade e relacionamentos.

Ajuda separar valores de personalidade. A personalidade descreve como a pessoa costuma agir. Os valores descrevem o que ela acha que vale a pena buscar. Alguém pode ser reservado e, ao mesmo tempo, dar muito peso a influenciar decisões. Os dois se conversam, mas não são a mesma coisa, como mostra a revisão de Lilach Sagiv e Schwartz na Annual Review of Psychology. E se você quer entender o lado da personalidade, este outro artigo mostra como ela muda ao longo da vida.

Os 10 valores da teoria de Schwartz

Em 1992, Schwartz publicou o capítulo que deu origem à teoria, com dados de 20 países. Ele encontrou dez tipos de valores, cada um ligado a uma motivação diferente, que as pessoas reconheciam em culturas muito distantes entre si. Nos nomes que o Perfiz usa, com o nome original entre parênteses:

ValorO que a pessoa busca
Autonomia (self-direction)Liberdade para pensar, escolher e criar do próprio jeito
Estímulo (stimulation)Novidade, desafio e variedade
Prazer (hedonism)Aproveitar a vida e ter momentos bons
Realização (achievement)Ter sucesso e ver o resultado reconhecido
Influência (power)Estar à frente, decidir e ter recursos
Segurança (security)Estabilidade, proteção e previsibilidade
Respeito às regras (conformity)Seguir combinados e respeitar os outros
Tradição (tradition)Costumes, crenças e raízes
Cuidado com os próximos (benevolence)Bem-estar de família, amigos e colegas
Universalismo (universalism)Justiça, igualdade e cuidado com o mundo

Desde então, a teoria foi testada com questionários diferentes em muitos lugares. Na revisão que o próprio Schwartz publicou em 2012, já eram dados de 82 países.

O círculo: valores que andam juntos e valores que brigam

A parte mais útil da teoria não é a lista. É o jeito como os dez valores se organizam num círculo. Valores vizinhos combinam: quem dá peso a segurança costuma dar peso também a respeito às regras. Valores em lados opostos puxam para direções contrárias, e a mesma decisão raramente atende os dois.

  • Abertura à mudança (autonomia e estímulo) fica do lado oposto da conservação (segurança, respeito às regras e tradição).
  • Autopromoção (realização e influência) fica do lado oposto da autotranscendência (cuidado com os próximos e universalismo).
  • Prazer fica entre a abertura à mudança e a autopromoção.

Volte à proposta do começo. Para quem tem realização e cuidado com a família no topo, aceitar o cargo atende um valor e machuca o outro, porque os dois estão em lados quase opostos do círculo. A semana mal dormida não é indecisão. É a pessoa escolhendo entre duas coisas que ela valoriza de verdade.

Quase todo mundo põe os valores na mesma ordem

83%
das amostras estudadas tiveram uma ordem de valores muito parecida com a média de todos os países (correlação de 0,80 ou mais), segundo Schwartz e Bardi (2001)

Em 2001, Schwartz e Anat Bardi olharam para as semelhanças, e não para as diferenças. Com amostras representativas de 13 países, professores de 56 países e universitários de 54, eles encontraram uma ordem que se repete. Cuidado com os próximos, autonomia e universalismo aparecem como os mais importantes. Influência, tradição e estímulo, como os menos importantes. As amostras brasileiras seguiram esse padrão de perto.

Isso muda a leitura de qualquer teste de valores. Se uma pessoa diz que cuidar dos outros é muito importante, a informação é pequena: quase todo mundo diz. O que revela algo sobre ela é o que foge do padrão, como estímulo entre os três primeiros ou tradição bem acima do que a maioria coloca.

Valores explicam o que as pessoas fazem?

A crítica mais comum é que valor é só o que a pessoa diz de si mesma. Em 2017, Lilach Sagiv, Sonia Roccas, Jan Cieciuch e Schwartz revisaram décadas de pesquisa na Nature Human Behaviour e concluíram que os valores declarados preveem atitudes, preferências e comportamentos numa grande variedade de áreas. A explicação proposta é que as pessoas tendem a agir de um jeito que permita expressar o que acham importante.

Isso não quer dizer que a ligação seja automática. A situação também pesa. Quem dá muito peso a autonomia pode passar anos num emprego cheio de regras porque precisa do salário. Nesse caso, o valor aparece no incômodo, não necessariamente na decisão de sair.

Como usar um teste de valores na prática

Se você aplica teste de valores com clientes, alunos ou times, quatro cuidados saem dessas pesquisas:

  1. 1Olhe a ordem, não cada valor sozinho. A teoria trata valores como prioridades: o que importa é o que pesa mais que o resto para aquela pessoa.
  2. 2Compare com o padrão. Cuidado com os próximos no topo é o esperado. Os valores que fogem da ordem comum são os que rendem conversa.
  3. 3Procure os pares opostos. Dois valores fortes em lados contrários do círculo costumam explicar decisões travadas e insatisfações difíceis de nomear.
  4. 4Use para conversar sobre escolhas, não para julgar. Não existe valor certo. Um time que vive de competição vai cansar quem dá mais peso a cuidado, e o contrário também acontece.

O teste de valores pessoais do Perfiz se inspira nos 10 valores de Schwartz, com 40 perguntas escritas pelo Perfiz. Como quase todo mundo concorda com quase todos os valores, cada um é comparado com a média da própria pessoa, e o relatório mostra os 10 em ordem, do que mais pesa ao que menos pesa. A versão Premium também avisa quando dois valores fortes ficam em lados opostos do círculo. Dá para ver tudo num relatório de exemplo.

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Fontes

  1. 1.Schwartz, S. H. (1992). Universals in the content and structure of values: theoretical advances and empirical tests in 20 countries. Advances in Experimental Social Psychology, 25, 1–65. doi.org/10.1016/S0065-2601(08)60281-6
  2. 2.Schwartz, S. H., & Bardi, A. (2001). Value hierarchies across cultures: taking a similarities perspective. Journal of Cross-Cultural Psychology, 32(3), 268–290. doi.org/10.1177/0022022101032003002
  3. 3.Schwartz, S. H. (2012). An overview of the Schwartz theory of basic values. Online Readings in Psychology and Culture, 2(1). doi.org/10.9707/2307-0919.1116
  4. 4.Sagiv, L., Roccas, S., Cieciuch, J., & Schwartz, S. H. (2017). Personal values in human life. Nature Human Behaviour, 1(9), 630–639. doi.org/10.1038/s41562-017-0185-3
  5. 5.Sagiv, L., & Schwartz, S. H. (2022). Personal values across cultures. Annual Review of Psychology, 73, 517–546. doi.org/10.1146/annurev-psych-020821-125100

Os testes do Perfiz são de autoconhecimento e desenvolvimento. Não são testes psicológicos e não servem para diagnóstico.