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Como fazer a devolutiva de um teste de perfil: roteiro em 6 passos

O relatório é a parte fácil. O que a pessoa leva da conversa depende da devolutiva. Um roteiro em seis passos, com o que a pesquisa diz sobre feedback e os cuidados legais no Brasil.

Equipe Perfiz

· 5 min de leitura

Ilustração de duas pessoas conversando numa mesa redonda perto da janela, uma delas apontando para um relatório com gráficos de barras
Neste artigo

Quem trabalha com teste de perfil sabe: o relatório é a parte fácil. A pessoa lê em dez minutos, concorda com quase tudo e guarda. O que fica, de verdade, é o que acontece na conversa depois.

Este roteiro é para coaches, profissionais de RH, professores e líderes que aplicam testes de perfil e querem que a devolutiva renda mais do que um "nossa, é bem eu".

Antes de tudo: teste de perfil não é teste psicológico

No Brasil, o uso de testes psicológicos é exclusivo de psicólogos. Isso vem do artigo 13 da Lei 4.119, de 1962, e é reforçado pela Resolução 31/2022 do Conselho Federal de Psicologia, que também regulamenta o SATEPSI, o sistema que avalia quais testes podem ser usados em avaliação psicológica.

Testes de autoconhecimento e desenvolvimento, como as versões abertas do Big Five ou os testes de 16 personalidades, são outra coisa. Eles podem ser usados por qualquer profissional para conversa, desenvolvimento e autoconhecimento, mas não servem para diagnóstico nem para avaliação psicológica. Isso muda o jeito de falar na devolutiva: você não está "avaliando" a pessoa, está usando o resultado para abrir uma conversa.

Por que a devolutiva importa tanto

Em 1992, Stephen Finn e Mary Tonsager fizeram um experimento com estudantes que esperavam atendimento num serviço de aconselhamento universitário. Todos responderam um questionário de personalidade. Um grupo de 32 recebeu uma devolutiva feita junto com a pessoa, em formato de conversa. Outro grupo, de 29, só recebeu atenção do avaliador, sem devolutiva.

Quem recebeu a devolutiva colaborativa teve queda no sofrimento e aumento da autoestima e da esperança, em comparação com o outro grupo. Um estudo de 1997, de Newman e Greenway, encontrou resultado parecido com outro grupo de 60 pessoas.

São estudos pequenos, feitos num contexto clínico, e não dá para levar os números direto para um processo de coaching ou de RH. Mas a lição vale: a forma como o resultado é devolvido pesa tanto quanto o próprio resultado.

Cuidado com o efeito Barnum

4,26
foi a nota média de 0 a 5 que os alunos de Bertram Forer deram à precisão de uma descrição de personalidade que era, na verdade, igual para todos

Em 1949, o psicólogo Bertram Forer entregou a cada aluno de uma turma o que dizia ser um retrato da personalidade dele. Todos receberam o mesmo texto, montado com frases de horóscopo de jornal. A nota média de precisão foi 4,26 de 5. O estudo virou referência com o nome de efeito Barnum, ou efeito Forer: a tendência a achar que frases genéricas descrevem a gente com exatidão.

Para a devolutiva, isso tem uma consequência direta. A pessoa concordar com o relatório não prova nada. "Você às vezes duvida de si mesma" serve para quase todo mundo. O que diferencia uma devolutiva boa é sair do genérico e chegar em situações concretas da vida daquela pessoa.

O roteiro em 6 passos

1. Combine o objetivo antes de mostrar qualquer número

Pergunte o que a pessoa espera da conversa e o que está acontecendo na vida dela agora: uma decisão de carreira, um conflito no time, uma promoção. Isso define o que vale olhar com calma e o que pode passar rápido.

2. Comece pelo que a pessoa reconhece

Abra pelos pontos fortes e pelos traços mais marcados, aqueles que ela provavelmente vai confirmar. Isso cria confiança para a parte em que o resultado surpreende.

3. Peça um exemplo para cada destaque

Para cada traço que aparece forte, peça uma situação recente: "Me conta uma vez, no último mês, em que isso apareceu." É o melhor antídoto contra o efeito Barnum. Se a pessoa não encontra exemplo nenhum, o traço talvez não seja tão forte quanto o número sugere, e isso também é informação.

4. Mostre os números como posição, não como nota

Um 80 em extroversão não é "nota boa" e um 30 não é "nota ruim". Explique que o número é a posição na escala do teste e que os dois lados de cada traço têm vantagens. Quem tem baixa extroversão costuma se concentrar melhor em trabalho longo e sozinho, por exemplo.

5. Trate a surpresa como hipótese

Quando o resultado não bate com o que a pessoa acha de si, não defenda o teste e não descarte o resultado. Pergunte: "Em que situações você acha que alguém poderia te ver assim?" Muitas vezes a resposta aparece no trabalho, num papel que a pessoa ocupa mas não reconhece como dela.

6. Feche com uma prática pequena e uma data

Termine com uma ação concreta para as próximas semanas, escolhida junto com a pessoa, e com uma data para retomar. Uma prática pequena que acontece vale mais do que um plano bonito que fica no papel.

Em vez de dizerExperimente
"Você é introvertido.""Nas suas respostas, você tende a recarregar a energia sozinho."
"Sua nota em organização foi baixa.""Você ficou mais perto do lado flexível do que do planejado."
"Isso explica por que você briga com seu chefe.""Isso aparece de algum jeito na relação com seu chefe?"
"O teste diz que...""Você se descreveu como alguém que..."

E quando o teste é usado em seleção?

Testes de perfil e de personalidade de uso livre não devem decidir sozinhos uma contratação, uma promoção ou um desligamento. No máximo, servem para orientar perguntas de entrevista. E quem participou do processo merece, no mínimo, uma devolutiva curta do que foi visto.

Os relatórios do Perfiz trazem um roteiro de perguntas para a devolutiva, montado a partir dos destaques de cada pessoa, e mostram os números como posição de 0 a 100, sem nota e sem rótulo fixo. Dentro do painel, o guia de cada teste também tem uma parte só sobre como conduzir a conversa.

Veja um relatório com roteiro de devolutiva

O exemplo completo mostra o relatório e as perguntas para a conversa, com uma pessoa fictícia.

Ver o exemplo

Fontes

  1. 1.Conselho Federal de Psicologia (2022). Resolução CFP nº 31/2022: diretrizes para a avaliação psicológica e regulamentação do SATEPSI. Diário Oficial da União. site.cfp.org.br/nova-resolucao-do-cfp-destaca-diretrizes-para-a-avaliacao-psicologica/
  2. 2.Finn, S. E., & Tonsager, M. E. (1992). Therapeutic effects of providing MMPI-2 test feedback to college students awaiting therapy. Psychological Assessment, 4(3), 278–287. www.therapeuticassessment.com/docs/FinnTonsager1992.pdf
  3. 3.Newman, M. L., & Greenway, P. (1997). Therapeutic effects of providing MMPI-2 test feedback to clients at a university counseling service: a collaborative approach. Psychological Assessment, 9(2), 122–131. acuresearchbank.acu.edu.au/item/85vq9/therapeutic-effects-of-providing-mmpi-2-test-feedback-to-clients-at-a-university-counseling-service-a-collaborative-approach
  4. 4.Forer, B. R. (1949). The fallacy of personal validation: a classroom demonstration of gullibility. Journal of Abnormal and Social Psychology, 44(1), 118–123. doi.org/10.1037/h0059240

Os testes do Perfiz são de autoconhecimento e desenvolvimento. Não são testes psicológicos e não servem para diagnóstico.