A personalidade muda com a idade? O que dizem os estudos
Muda, sim, mas devagar e numa direção que se repete em quase todo mundo. O que as maiores revisões sobre o tema encontraram, e o que isso muda na hora de ler um teste de perfil.
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Neste artigo
Quem responde um teste de personalidade aos 22 anos e repete aos 35 costuma estranhar o resultado. "Eu era tão desorganizado assim?" Era, provavelmente. E não, o teste de antes não estava errado.
Durante muito tempo, a psicologia tratou a personalidade adulta como algo praticamente fixo depois dos 30. Os estudos que acompanharam as mesmas pessoas por anos mostraram outra coisa: ela continua mudando a vida inteira. Só que devagar, e quase sempre no mesmo sentido.
A resposta curta
A personalidade muda, sim. Em média, as pessoas ficam mais calmas, mais organizadas e mais seguras ao longo da vida adulta, com a maior parte da mudança entre os 20 e os 40 anos. Ao mesmo tempo, quem era o mais extrovertido da turma aos 25 tende a continuar entre os mais extrovertidos aos 50. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e entender a diferença entre elas ajuda muito na hora de ler um relatório.
O que a maior revisão sobre o assunto encontrou
Em 2006, Brent Roberts, Kate Walton e Wolfgang Viechtbauer juntaram 92 amostras de estudos que mediram a personalidade das mesmas pessoas em momentos diferentes. O trabalho saiu na Psychological Bulletin, uma das revistas mais citadas da área, e virou referência sobre o tema.
O padrão que apareceu foi este:
- Dominância social (a parte da extroversão ligada a se impor e tomar a frente), conscienciosidade e estabilidade emocional sobem, principalmente entre os 20 e os 40 anos.
- A vitalidade social e a abertura a experiências sobem na adolescência e caem na velhice.
- A amabilidade muda pouco até a velhice, quando sobe.
- Homens e mulheres mudam de forma parecida. Estudos mais longos e gerações mais novas mostraram mais mudança.
Dois anos depois, Roberts e Daniel Mroczek resumiram o quadro num artigo da Current Directions in Psychological Science. Um dado chama atenção: houve mudança média em 75% dos traços estudados também na meia-idade (40 a 60 anos) e na velhice. Ou seja, a ideia de que tudo se resolve até os 30 não para em pé.
O princípio da maturidade
A direção da mudança não é aleatória. Com o tempo, a maioria das pessoas fica mais confiante, mais calorosa, mais responsável e mais estável. Os pesquisadores chamam isso de princípio da maturidade: a personalidade tende a se mover para o que facilita viver em sociedade, trabalhar e manter relações.
Isso é uma tendência média, não uma regra para cada um. Algumas pessoas mudam mais do que a média, outras menos, e algumas vão no sentido contrário. Num grupo de vinte pessoas, você vai encontrar todos esses casos.
O que faz a personalidade mudar
A explicação mais aceita hoje é a do investimento social. Quando a pessoa assume papéis adultos, como um emprego, um casamento, filhos ou uma função de liderança, ela passa a ser cobrada por certos comportamentos. Com a repetição, esses comportamentos deixam de ser esforço e viram jeito de ser.
Roberts e Mroczek citam alguns achados nessa linha. Carreiras estáveis e satisfatórias aparecem ligadas a ganhos de estabilidade emocional e de conscienciosidade. Já comportamentos contraproducentes no trabalho, como agressividade ou desvio, aparecem ligados à queda desses mesmos traços. O trabalho molda a personalidade, e não só o contrário.
Muda a média. E a posição de cada um?
Aqui entra a distinção que mais confunde. Uma coisa é a mudança média: o grupo todo fica, em média, mais organizado com a idade. Outra é a estabilidade de posição: se você era mais organizado que seus colegas aos 25, continua mais organizado que eles aos 45?
Uma meta-análise mais recente, de Wiebke Bleidorn e colegas (2022), reuniu 189 estudos e quase 180 mil pessoas para olhar a estabilidade de posição, e 276 estudos com mais de 240 mil pessoas para olhar a mudança média. O trabalho encontrou três coisas úteis para quem aplica testes:
- A posição de cada um fica mais estável ao longo da juventude e chega a um platô por volta dos 25 anos. Depois disso, quase não aumenta.
- A mudança média ao longo da vida é um pouco menor do que se estimava antes. A exceção é a estabilidade emocional, que sobe mais e de forma mais consistente do que se pensava.
- Medidas mais específicas, como as facetas dentro de cada traço, são menos estáveis do que os cinco traços amplos.
O que isso muda para quem aplica teste de perfil
Se você usa teste de personalidade com clientes, alunos ou times, quatro cuidados saem direto dessas pesquisas:
- 1Leia o resultado como um retrato de agora, não como uma sentença. Diga isso na devolutiva, com essas palavras.
- 2Reaplique depois de um ou dois anos, ou depois de uma grande mudança de vida. Comparar os dois relatórios costuma render uma conversa melhor do que qualquer um deles sozinho.
- 3Desconfie mais das facetas do que dos traços quando o resultado surpreender. Elas mudam mais e oscilam mais entre uma aplicação e outra.
- 4Cuidado com jovens. Antes dos 25, a posição de cada um ainda está se firmando. Rotular um estudante de 17 anos como "pouco organizado" pode virar profecia.
No Big Five completo do Perfiz, cada traço vira uma posição de 0 a 100 na escala do teste e é aberto em seis facetas. O relatório mostra as facetas que fogem do próprio traço, que são um bom ponto de partida para perguntar o que mudou. Se quiser algo mais rápido, o Big Five rápido mostra só os cinco traços, em uns 7 minutos.
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Fontes
- 1.Roberts, B. W., Walton, K. E., & Viechtbauer, W. (2006). Patterns of mean-level change in personality traits across the life course: a meta-analysis of longitudinal studies. Psychological Bulletin, 132(1), 1–25. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16435954/
- 2.Roberts, B. W., & Mroczek, D. (2008). Personality trait change in adulthood. Current Directions in Psychological Science, 17(1), 31–35. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2743415/
- 3.Bleidorn, W., Schwaba, T., Zheng, A., Hopwood, C. J., Sosa, S. S., Roberts, B. W., & Briley, D. A. (2022). Personality stability and change: A meta-analysis of longitudinal studies. PsyArXiv (versão aberta). doi.org/10.31234/osf.io/eq5d6
Os testes do Perfiz são de autoconhecimento e desenvolvimento. Não são testes psicológicos e não servem para diagnóstico.

